Quem não sabe pensar acredita no que pensa.

Quem sabe pensar desconfia do que pensa, e põe-se a repensar…

Idéias que paralisam

Posted by teiversonalves em 4 de abril de 2007

Governos, empresas e pessoas tornam-se reféns de pensamentos que impedem a ação. Cuidado com eles!

O escritor Francês Gustave Flaubert, concebeu pouco antes de sua morte, o “Dicionário de idéias feitas” . Seu propósito era zombar os clichês de seu tempo – por exemplo, a idéia de que calvice era sinal de inteligência, ou de que pessoas que moram em zonas tropicais são mais preguiçosas. Se vivesse hoje, talvez ocorresse a Flaubert fazer outro tipo de lista, tento como tema principal as pragas de nosso tempo – as idéias paralisantes. Como no século XIX, a época atual tem seus clichês. A diferença é que, magnificados pelo bombardeamento da informação, eles se transformam em falsas unanimidades que atrapalham a vida das nações e dos indivíduos.
Com tantos livros de auto-ajuda no mercado, é curioso que não exista tratado a respeito das idéias paralisantes. Talvez porque a maior parte dos livros de auto-ajuda esteja empenhada em reforçá-las. Mas é fácil verificar que elas nascem de visões ideológicas ultrapassadas, do conformismo intectual, da incompetência ou da simples e pura preguiça de pensar.

NA POLÍTICA

A idéia: “O Brasil jamais será um país desenvolvido, com justiça social, se não fizer uma reforma agrária.”
Por que é paralisante: Isso podia tem alguma dose de verdade no início do século XX, quando a economia es baseava na agricultura e a população brasileira era predominantemente rural. Hoje, com uma economia de forte perfil industrial, uma produção agrícola que é fruto de um intenso processo de mecanização e mais de 85% dos cidadãos vivendo em cidades, essa é uma idéia absolutamente fora do lugar. O que o país precisa para desenvolver-se e promover a justiça social é de mais educação e empregos dignos. Por que condenar um sem-terra a viver no campo se, com um trabalho na cidade, ele pode ganhar mais com uma torina menos estafante, além de estar mais próximo de escolas e hospitais para a família?
Distribuir terra é mais caro e menos efetivo, do ponto de vista do desenvolvimento da nação, do que garantir uma boa instrução escolar a todos e proporcionar crédito para a criação e ampliação de pequenos negócios. Além disso, há cada vez menos terras a ser distribuídas no Brasil. A maior parte delas está nas mãos de agroindústria, que exporta, gera divisas para o país e proporciona alimentos de melhor qualidade e mais baratos para a população.

A idéia: “O Brasil te, 44 milhões de famintos e, diante dessa hecatombe social de proporções africanas, não há muito o que fazer.”
Por que é paralisante: Porque impede a adoção de programas eficazes para o combate a fome no Brasil – aqueles que exigem apenas ações localizadas. Não existe nenhum levantamento quantificando o número de portadores de carência alimentar no Brasil, mas certamente ele está muito longe dessa cifra mastodôntica. O estudo mais confiável, realizado pelo IBGE, identificou somente 3,8 milhões de brasileiros abaixo do peso, e em áreas do país muito bem delimitadas. grande parte, inclusive, está acima do peso – ou seja, não sofre de fome, mas de falta de educação alimentar. Irritado com a divulgação do estudo do IBGE, o economista José Graziano, idealizador do Fome Zero, aumentou a cifra de brasileiros famintos ainda mais – para 77 milhões. Em vez de tentar elucidar as cifras, o governo petista tentou amordaçar o IBGE. Não conhecer as reais dimensões de um problema é o primeiro passo para não resolvê-lo.

A idéia: “A violência no Brasil não é um problema de polícia. É antes de tudo uma questão social.”
Por que é paralisante: É certo que a violência tem raízes também na questão social – mas são múltiplos os motivos que a determinam. Contribuem para ela a corrupção e a falta de treinamento e de equipamento dos policiais, a ausência de uma polícia de fronteira que consiga diminuir o contrabando de armas e drogas no território nacional, a leniência dos gorvenantes com os bandidos, a lentidão do sistema judiciário brasileiro e o excesso de recursos legais disponíveis para colocar um criminoso fora das grades. Ou seja, é possível, sim, diminuir a violência antes de resolver os problemas sociais, que demandam tempo. Uma cidade como Bogotá, na Colômbia, reduzio drasticamente seu índice de assassinatos por 100 000 habitantes, apenas apaelhando melhor a polícia e integrando-a na comunidade. Há sete anos, esse índice era ao Rio de janeiro (na casa dos 70 assassinatos por 100 000 habitantes). Agora, está na faixa de 25.

NA ECONOMIA


A idéia:
“O governo disse que, com uma política austera, de responsabilidade fiscal, o Brasil voltaria a crescer. Estamos há dez anos na trilha da austeridade e o país não cresce o suficiente. O melhor, portanto, seria tentar fazer o contrário: soltar as rédeas para ver se a economia acelera sua expansão.”
Por que é paralisante: O crescimento econômico se deve a uma combinação de fatores: conjuntura internacional favorável, capacidade de inovação tecnológica e gerencial e credibilidade para captar investimentos. Esta última condição, conseqüência de uma política austera, é necessária mas não suficiente. O fato é que a economia brasileira, assim como a de outros países em desenvolvimento, sofreu uma desaceleração com dois grandes solavancos internacionais ocorridos na segunda metade da década de 90 – a crise da Ásia e a da Rússia. Além disso, em que pesem os avanços, ainda estamos longe de ter grandes diferenciais na área tecnológica e gerencial. Se fosse possível crescer por decreto, nenhum governo optaria por não crescer. Achar que é possível fazê-lo leva a dois caminhos. Um, o do desânimo – estamos seguindo uma receita que não comporta nenhum ganho de monta em troca. Outro, o da mudança irresponsável. Continuar a fazer a lição de casa no campo da responsabilidade fiscal e do respeito aos contratos é a única maneira para que o país não só continue a beneficiar-se de crédito internacional e da bonança na conjuntura mundial, como para que consiga construir uma sociedade produtiva do ponto de vista tecnológico, gerencial e intelectual. A maior rapidez desse processo depende em grande parte da redefinição de prioridades no direcionamento de investimentos pesados – e uma dessas prioridades deveria ser a educação, o fator determinante para uma nação como a Coréia do Sul, por exemplo, ter saído do lamaçal do Terceiro Mundo no espaço de duas gerações.

A idéia:
“É preciso ter inflação para que o país cresça em índices razoáveis.”
Por que é paralisante: Apesar da conjunção de crescimento alto e inflação alta nos anos 70, não existe nenhuma teoria econômica que afirme haver uma relação direta entre as duas coisas. Em geral, o país cresce num primeiro momento, depois pára – e fica-se, aí, com o pior dos dois mundos: estagnação e inflação. O crescimento depende de vários fatores, e um deles é justamente o rigor no combate à inflação, que torna a economia previsível, recompensando quem planeja e investe. Desde 1994, com a implantação do Plano Real, o brasileiro – principalmente o mais pobre, que é quem paga a conta da inflação – se acostumou com a estabilidade econômica. Dificilmente um governante que deixe voltar o que antigamente se chamava de “carestia” conseguirá ser reeleito ou fazer o sucessor.

A idéia: “A indústria precisa de subsídios governamentais para desenvolver-se.”
Por que é paralisante: Essa idéia tinha validade nos anos 50, quando o capitalismo brasileiro era incipiente e o Estado começou a drenar grandes recursos para a indústria, deixando de atender às demandas sociais – o governo de Juscelino Kubitschek foi um dos que menos investiram em educação na história brasileira. Defendida por alguns industriais paulistas e economistas da Unicamp, a tal “política industrial” ajudou o país a crescer, mas foi também responsável por criar empresas ineficientes, que cobravam preços altíssimos por seus produtos e serviços. É o tipo de coisa difícil de ter de volta. É mais fácil fazer política industrial numa ditadura. Em uma democracia, seria escandaloso dar dinheiro a empresários quando existem tantas necessidades de educação e saúde a ser atendidas. Além disso, numa era de responsabilidade fiscal e monitoramento de organismos internacionais, é mais complicado endividar o Estado e jogar a conta para as gerações seguintes, como se fazia nos anos 50.

NO TRABALHO

A idéia: “Como meu chefe não gosta de mim, não adianta trabalhar duro porque nunca serei promovido.”
Por que é paralisante: Um pensamento desses pode atrapalhar bastante uma carreira. Problemas de relacionamento com a chefia são comuns. Na maioria dos casos, no entanto, é possível superá-los. Uma avaliação serena da situação permite dizer se é o caso de trocar de empresa ou setor – raramente é – ou de buscar expedientes que ajudem a melhorar o relacionamento com o chefe. O mais recomendável desses expedientes é tornar-se um funcionário ainda mais produtivo, em vez de se lamuriar no cafezinho. Ah, sim, nunca, jamais se deve partir para o caminho da bajulação explícita. Isso só servirá para deixar seu chefe ainda mais irritado.

A idéia: “Nunca vou conseguir subir na carreira porque não sei falar em público. Sempre que começo uma apresentação, alguém sai da sala.”
Por que é paralisante: O fato de alguém sair da sala durante uma apresentação não significa que a culpa seja, necessariamente, de um mau orador. Essa sensação de falar mal em público, no entanto, atrapalha muitas carreiras. Nada que um bom curso de oratória não possa resolver – e cada vez mais empresas pagam aulas desse tipo para seus funcionários.

A idéia: “Não sou capaz de escrever bons relatórios. Até para redigir uma simples carta eu me atrapalho.”
Por que é paralisante: A dificuldade para escrever é comum em profissionais de todas as áreas. Muitas vezes, no entanto, ela é agravada por causa de equívocos. O maior deles é acreditar que chefes esperam peças brilhantes de retórica. Um bom relatório é aquele que é claro e objetivo. Use a ordem direta, não separe sujeito de verbo com vírgula, aprenda a usar crase, economize nos adjetivos, seja parcimonioso nos advérbios, não tenha receio de consultar um dicionário, não tente ter estilo – essas pequenas providências sem dúvida o ajudarão.

NA CULTURA

A idéia: “A indústria cultural sufoca a produção artística do país.”
Por que é paralisante: O país onde a indústria cultural é mais forte se chama Estados Unidos. Lá se produz lixo como em nenhum outro lugar do mundo, mas também é o país do jazz, das grandes orquestras sinfônicas, de clássicos cinematográficos e da melhor literatura. A existência de uma escritora como Danielle Steel é compensada por Norman Mailer e Paul Auster. Em Nova York, o mercado dos grandes musicais da Broadway viabiliza a sobrevivência de artistas que, em projetos paralelos, renovam o teatro alternativo e a música de vanguarda. Erra quem pensa que não adianta fazer música, literatura ou teatro bons porque não vai conseguir espaço nas gravadoras, editoras ou casas de espetáculo. Sempre haverá público para obras de qualidade.

A idéia: “A crítica deve ser sempre construtiva. Um crítico deveria escrever apenas quando tem algo de bom a dizer sobre o que critica.”
Por que é paralisante: É uma idéia típica do Brasil, país onde os críticos tentam ser amigos dos artistas e têm medo de magoá-los. Nenhuma nação culturalmente séria prescinde de uma crítica independente – e dura. Quanto mais exigente ela for, mais elevados os padrões e, conseqüentemente, maior a qualidade dos produtos culturais. O maior crítico de música clássica dos Estados Unidos foi Harold Schonberg, do jornal The New York Times, nos anos 60 e 70. Seus textos exasperavam o regente da Filarmônica de Nova York – que era ninguém menos do que o grande Leonard Bernstein. O resultado de tanta exigência é que hoje o padrão das orquestras americanas supera o das européias (com exceção apenas de Áustria e Alemanha). Quanto a desestimular os jovens, é só ter critério. Schonberg, para ficar no exemplo, voltava seu senso crítico para Bernstein. Não gostava de chutar cachorro morto – outro vício recorrente da crítica cultural brasileira.
(Fonte: Revista Veja – Brasil – 30/3/2005)

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